Conversei com a mãe de uma garotinha que completa três anos neste semestre e que foi matriculada na escola pela primeira vez no início do ano. O problema, segundo a mãe, é que a menina fica desesperada na hora de ir para a escola e chora o tempo todo que lá fica.
Durante nossa conversa, essa jovem mulher disse que está esgotada porque preferiria não levar a filha para a escola, mas não tem escolha por causa do horário de trabalho e da indisponibilidade de sua mãe, que, até então, dera conta de ficar com a neta. Essa mãe não está sozinha ao viver esse dilema, não é verdade?
Uma pesquisa recente apontou que bebês de até quatro meses têm sido alimentados com comida industrializada com frequência. Que tal uma lasanha congelada no almoço e umas bolachas recheadas para o lanche dessas crianças? Mães de todas as classes sociais têm feito isso e um dos motivos é que não sabem cozinhar.
Um número enorme de mães reclama do cansaço que provoca a dedicação ao trabalho e o cuidado com os filhos. Elas querem férias deles também, como têm no trabalho. Babás trabalham diuturnamente para muitas mulheres que não dispensam folguistas nem nos feriados. Alguns pediatras informam que muitos bebês e crianças vão ao consultório acompanhados apenas de suas babás.
Em salões de beleza, é comum encontrar mulheres acompanhadas das filhas pequenas que se inquietam, choram, fazem birra. O mesmo ocorre em restaurantes, shoppings, aeroportos etc.
Em tempos em que a mulher pode marcar presença em quase todos os segmentos profissionais, pode ter filhos casada ou não, com parceiro ou não, pode estabelecer e romper relações amorosas quando quiser, pode cultivar sua aparência de acordo com seus anseios e disponibilidade financeira, ter autonomia econômica etc., parece que desfruta de uma liberdade sem fronteiras.
O problema é que nem sempre a mulher reconhece que muito do que faz não é por escolha. Sim. Na atualidade, ela está submetida às mais variadas pressões, muitas delas tão sutis que se travestem de seus propósitos pessoais. Conhece o ditado popular "o que não tem remédio, remediado está"? Podemos transformar em "o que não tem escolha, escolhido está" no caso das mulheres.
Como liberdade é poder escolher, conseguir realizar sua opção e abdicar das outras, podemos dizer que a liberdade feminina anda plena de restrições. E, depois da fase "mulher maravilha", o cansaço bateu.
O que fazer com os filhos que precisam da disponibilidade (não da presença física) em tempo integral da mãe, com os anos que passam e com a aparência física que perde o frescor, com os embates competitivos no campo profissional que desgastam e sugam energia, com as obrigações sociais, com a solidão habitada por multidões de "amigos"?
E agora, Maria?
(Rosely Sayão - Caderno Equilíbrio, Folha de São Paulo)












8 comentários:
eu resolvi fazer o que meu marido sempre fala: escolha, conviva com isso e seja feliz assim. nao é fácil, mas eu escolhi. sou presente e disponivel. até tentei trabalhar, propondo horarios alternativos, mas nao deu certo. passei de desenhista a costureira, para poder ficar em casa. costureira leia-se crafter, desenhista leia-se futura arquiteta. minha filha é minha prioridade e meu bolso dói por isso, mas fazer o que? aprendo com minha filha todos os dias e ainda choro e me sinto sozinha, mas nao me arrependo de ser a pessoa com quem ela pode sempre contar, a qual os profissionais que lidam com ela chamam quando ela precisa, a que procura soluções para melhorar a qualidade de vida dela. nunca pedi tanto e nunca agradeci tanto quanto quando ela nasceu e desde então aprendi a ser mais humilde. depois de 5 anos, prematuridade extrema, problemas respiratórios recorrentes, sindrome de asperger eu finalmente entendi que ela veio fazer de mim uma pessoa melhor, uma mãe. eu pensei estar criando alguem, mas não, ela que me cria. bjs
O estatus de Mulher Maravilha já está tão enraizado em nossa cultura que hoje ensinamos as meninas desde cedo a serem "bombril". Acredito que eu tenha sido criado desta forma, pois não me vejo largando tudo para ficar em casa cuidando do meu filho, apesar de amá-lo mais que a minha vida.
Oi!! Acabei de descobrir isso daqui e estou adorando! Posso fazer parte na categoria Cotidiano?
Bjs
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Bom artigo. Bom pra refletir mesmo. Eu sou mãe de um menino e larguei trabalho, amigos e todo o resto pra seguir o pai do meu filho e apenas cuidar do nosso filhote aqui do outro lado do mundo, na Indonésia. É difícil, cansativo e ainda tem um mundo novo a nossa volta. Por aqui, o que não faltam são mães brasileiras que "largaram"tudo, mas terceirizaram a criação dos filhos. Outro dia, uma me disse que a babá estava fazendo o bebe dela de 6 meses dormir. Fiquei escandalizada! eu, de minha parte, não sei se vou ficar muito tempo só cuidando de meu filho, mas quero esperar pelo menos até que ele complete um ano. Depois disso, acho que vou procurar algo em minha área e engrossar a lista de mulheres maravilha.
Estranho que estava pensando sobre isso hoje. Não sou mãe ainda (pelo menos de humanos, tenho dois bebês gatos rs) e não penso ser tão cedo.
Trabalho, estudo e nos finais de semana cuido da casa, mas não sei cozinhar e mal tenho tempo para cuidar das mim. Mas penso se é isso que quero da minha vida quando tiver filhos, trabalhar oito horas por dia para mais e mal ter tempo para vê-los.
As mulheres antes de nós lutaram para conseguir seu espaço e se tornarem independentes. E hoje eu vejo essa luta como a que me permite escolher, e talvez eu escolha um trabalho menos rentável, em que eu possa ficar tempo suficiente com meus filhos.
texto perfeito. mariana do diario da mariana
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Olá..
Gostei muito do seu blog ^^
Bons os textos!
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Um abraço.
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